Por trás do Escudo

Pessoal, meu nome é Fernando “del Angeles” Pires e vou escrever sobre RPG de vez em quando aqui. Atualmente eu trabalho para a editora Retropunk como tradutor e editor da linha de RPG, além de já ter trabalhado em traduções de outras editoras. Mas não vim falar sobre mim e sim, falar um pouco sobre RPG. Não, não é os RPGs de videogame que têm se multiplicado nos últimos anos, mas sim o RPG de mesa, ou de “papel”.

RPG, da sigla em inglês, Role Playing Games, é algo que pode ser traduzido como Jogo de Interpretação de Personagens, onde cada jogador assume um personagem – normalmente criado por ele – e vão realizando suas ações de acordo com a história do Mestre – um jogador especial que conta a história para os jogadores, veja ele como o console de seu jogo. Se o Mestre é o console, o sistema de regras que você usa é o software usado por ele para contar a história e o cenário é o jogo propriamente dito.

Outra boa metáfora para exemplificar o que é RPG é a famosa brincadeira de polícia e ladrão que costumavámos brincar quando crianças – pelo menos é o que as crianças de minha época brincavam – onde sempre tentavamos matar os bandidos com nossas armas imaginárias em uma história que só existia em nossa mente. Isso é RPG. Mas devem se lembrar que também havia o problema: “Eu te acertei, você morreu!”, logo seguido de “Mentira, a bala passou de raspão!”. Para evitar esses problemas existem os sistemas de regras em todos os jogos.

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O RPG surgiu de wargames, jogos de miniaturas e guerras entre exércitos, onde um grupo de jogadores, em uma de suas partidas teve a ideia de invadir um castelo usando apenas alguns “personagens” de seu exército. Com isso veio o problema, não havia regras no wargame que previssem essa invasão de um pequeno grupo de personagens a um castelo. Assim, surgiu o Dungeons & Dragons, onde eles criaram regras para esses heróis invadirem o castelo em uma exploração de masmorras, que seria lançado oficialmente em 1974. Dungeons & Dragons (D&D) é com certeza o RPG mais famoso de todos os tempos, nele era apresentado raças fantásticas e heróis épicos que tinham que invadir a masmorra, derrotar o dragão e coletar o tesouro. Tudo muito inspirado nas obras de Tolkien.

Hoje, fantasia medieval ainda é o gênero mais conhecido e difundido do RPG, mas é possível jogar qualquer estilo/cenário/gênero, desde a supracitada fantasia medieval, até um cyberpunk, passando por apocalipse zumbi, super heróis e o que mais a sua imaginação permitir.

No Brasil, o RPG começou a aparecer nos 80, mas era acessível somente a quem entendia inglês e viajava para os EUA e trazia os livros de lá – não meus amigos com menos de 20 anos, a internet ainda não era acessível a ponto de compras internacionais ou compra de pdfs se tornarem banais – e eram muitos os que se aproveitavam do amigo para tirar xerox de seus livros para poder continuar jogando. Essa foi a chamada geração Xerox.

Se você já conhece RPG e jogava nos anos 90, você com certeza jogou D&D, Vampiro: A Máscara e/ou GURPS. Estes eram os RPGs mais conhecidos e uns dos poucos traduzidos para a língua portuguesa. Tivemos alguns títulos nacionais como Tagmar, 3D&T e Trevas.

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Nos anos 2000 tivemos um período de claro dominio do D&D, com a sua 3° edição e posteriormente a 3.5 que inovou ao abrir sua licença de forma que todos poderiam usar o sistema de regras para lançar seu material. Porém, no fim da década tivemos o surgimento de uma 4° edição e um verdadeiro cisma no RPG nacional.

O D&D 4E não agradou uma grande parcela dos fãs em sua tentativa de emular mais os jogos eletrônicos. No restante do mundo já havia uma cena indie bem forte com vários jogos que fugiam das mecânicas de D&D e no Brasil o surgimento de editoras menores com títulos diferentes veio coincidir com o descontentamento da 4 edição. Assim tivemos o surgimento da Redbox com o Old Dragon, um retroclone de D&D se usando da licença aberta da 3.5 que venho agradar os fãs que não gostaram da mudança da 4° edição; e a editora Retropunk com lançamentos de alguns títulos indies.

Hoje, há várias editoras pequenas lançando vários jogos por aqui e nunca antes foi tão fácil jogar RPG, é possível encontrar vários jogos gratuitos para baixar, comprar pela internet nas próprias editoras (as vezes com desconto), encontrar grupos já formados através das redes sociais e até mesmo jogar pela internet com programas próprios.

Essa foi uma breve história do RPG por essas bandas, apenas para aqueles que nunca jogaram tenham uma noção, ou se você já jogou e parou de jogar, mas deseja voltar, tenha uma noção.

Agora que já passamos da parte histórica, como se faz para jogar RPG? Primeiramente você precisa de um grupo de amigos. Dois, um sendo o Mestre e outro o jogador já é o suficiente, mas o ideal é pelo menos 4 (1 Mestre e 3 Jogadores), o ideal é que o Mestre conheça bem o sistema de regras. Além disso vocês precisam de um sistema de regras (irei listar alguns dos que mais recomendo abaixo); dados, muitos sistemas usam dados de faces variadas, dado de 4 faces, de 8, de 10 etc; papel, lápis e borracha e muita imaginação.

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Em uma partida de RPG, cada personagem irá criar e interpretar um personagem, os personagens serão definidos pela história, se você está jogando uma aventura medieval, um cowboy do faroeste americano não irá se encaixar. E cabe ao Mestre apresentar o cenário aos personagens e propor uma história onde há um desafio a ser vencido pelos jogadores, além de interpretar todos os outros personagens que não são os jogadores, como o vilão do jogo, os aliados ou os simples personagens coadjuvantes. A história é contada em conjunto, onde os personagens reagem aos desafios do Mestre e com isso ele vai desenvolvendo a história. Pode parecer confuso, mas é bem simples quando você está jogando, é só fazer de conta que você é aquele personagem que criou.

Bem, você já tem uma noção básica do que é RPG, gostou e quer jogar. Por onde começa? Segue agora uma lista dos jogos que eu recomendo com uma breve descrição deles:

Old Dragon: Sistema de regras para fantasia medieval da editora Redbox, foi lançado justamente com o descontentamento da 4° edição do D&D usando as regras da licença aberta do D&D 3.5, mas tem a pegada Old School das primeiras edições do D&D. Você pode baixar a sua versão fastplay gratuitamente (http://olddragon.redboxeditora.com.br/downloads/#tab-7), além disso sua versão completa possui um preço acessível e lançamentos constantes.

Savage Worlds: Lançado pela editora Retropunk é um sistema genérico onde você pode jogar qualquer gênero com o mesmo sistema. Ele á altamente adaptável, veloz e furioso. Possui uma versão fastplay que pode ser baixada gratuitamente (http://retropunk.net/store/13-savage-worlds) e um suporte crescente com aventuras e cenários para ele.

Dungeon World: Esse também é de fantasia medieval, lançado pela Secular, possui um sistema bem simples e intuitivo, ótimo para jogadores e mestres novatos. infelizmente não possui um fastplay gratuito, mas seu preço é bem em conta pata um livro de 400 páginas. (http://www.secular-games.com/dungeon-world/)

3D&T: Sistema nacional com uma pegada Anime/Mangá, mas que pode ser facilmente adaptado para outros gêneros. Seu pdf pode ser baixado gratuitamente no site da Jambô (https://lojajambo.com.br/rpg/rpg-3det/manual-3dt-alpha-edicao-revisada-digital/) e sua versão impressa também tem um preço bem em conta.