Jogando RI: O Primeiro Grande Debate e as Amizades destruídas

O leitor que acompanhou as colunas anteriores e ainda esteja se familiarizando com o mundo das Relações Internacionais provavelmente se surpreendeu com o nível de pessimismo que acompanha a discussão tradicional da área. Desconfiança, traições, violência e medo são temas recorrentes no relacionamento entre Estados desde que o mundo é mundo, e isso se reflete nos estudos desde os tempos da Guerra do Peloponeso com as obras de Tucídides. Mas há esperança! Hoje veremos que, se nem tudo são flores, tampouco tudo são guerras nas RIs, e claro, teremos correlações surpreendentes em jogos.

guerra

Como adiantado, a matriz teórica discutida até o momento é conhecida como Realismo. A vertente clássica envolve algumas características básicas, e todas decorrem de um par de fatores: a natureza humana e a existência dos Estados. No sistema internacional moderno, na ausência de um poder que regule o comportamento dos agentes estatais, eles ficam à mercê da capacidade uns dos outros, e da vontade dos mais poderosos. Aquele que detiver mais poder (sejam exércitos, economia ou armas nucleares) consegue alcançar seus objetivos e, principalmente, evitar que sua vontade seja influenciada pelos outros. No mundo de realistas clássicos, grosso modo, manda quem pode. Pouco importa o que acontece dentro dos Estados (por vezes remetendo ao modelo da “bola de bilhar”) – o que importa é o seu comportamento na arena internacional, que deve ser pautado pela sobrevivência, e a antecipação dos movimentos dos demais, que reagem uns aos outros.

Porém, nem todos os pensadores veem o mundo de maneira tão cínica. Há aqueles que consideram que apesar de todo o individualismo, o ser humano não apenas vive em sociedade, mas convive, o que pressupõe certo nível de tolerância e, principalmente, cooperação. Ideia oriunda de pensamento filosófico, jurídico e econômico, essa rica colcha de retalhos teórica com tantas vertentes é conhecida como Liberalismo, e se exprime no campo das RIs propondo ideias semelhantes ao Realismo, mas com consequências diferentes.

Por exemplo, um pressuposto realista é como a natureza humana é má. Isso também está presente no pensamento de Immanuel Kant, filósofo e um dos autores basilares do Liberalismo clássico. Porém, em vez de propor que isso inevitavelmente leva à violência, a convivência dos seres humanos impõe o desafio da constante evolução das relações sociais, tornada possível por meio da razão. O homem pode aprender com seus erros, e esse aprendizado se acumula, fazendo com que as gerações posteriores sejam menos selvagens que as precedentes. Com o tempo, a convivência dos seres humanos seria mais harmoniosa, especialmente no nível internacional, em que se perceberiam as vantagens da cooperação em vez da guerra.

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Exemplos disso são vários. Pensadores como o Abade de Saint Pierre falavam em uma confederação de estados cristãos na Europa em busca da paz; o presidente dos EUA Woodrow Wilson foi um dos articuladores da Liga das Nações como um fórum internacional para prevenir disputas e para evitar a repetição da carnificina da Grande Guerra (nem se imaginava que seria a Primeira naquele momento) e até levou o prêmio Nobel da Paz por isso; e nos anos 1950 Karl Deutsch assentou as bases para o estudo sobre comunidades de segurança, zonas onde o conflito é dificultado ou até mesmo impensável por fatores políticos e econômicos, e um conceito fundamental nos estudos de segurança até hoje.

Apesar de as bases teóricas do Realismo serem mais antigas, era o Liberalismo que se encontrava em voga quando o estudo das RIs engrenou, e o confronto entre essas duas visões (ilustrado por Edward Carr às portas da II Guerra com seu clássico “Vinte anos de crise”) ficou marcado nas RIs como o “primeiro grande debate” da área. Existe um grau muito grande de otimismo (alguns diriam até boa vontade) no Liberalismo e tal nível de abstração fez com que fosse tachado, pejorativamente, de “idealismo” por pensadores da Realpolitik – e o combo Segunda Guerra Mundial/Guerra Fria veio a comprovar essa aparente derrota do corpo teórico. O que importava não era o que se planejava para os Estados, mas o que se via que acontecia entre eles – leia-se, 60 milhões de mortos e o risco do apocalipse nuclear.

Mas estaria o Liberalismo fadado ao fracasso? A evolução da Guerra Fria e as complexidades crescentes do sistema internacional deram novo fôlego a pensadores que confrontaram o realismo clássico (hoje considerado caduco e substituído por versões mais modernas) e fizeram o liberalismo ressurgir como uma miríade de vertentes e pesquisadores que englobam dos Estudos da Paz ao Institucionalismo. A abrangência e complexidade desse Neoliberalismo das RIs é grande demais para uma postagem só, mas basta para que se compreenda como o chamado Idealismo pode ter sido o verdadeiro vencedor em longo prazo do debate: a existência de blocos econômicos, tratados e o fato de a Europa não ter visto uma única guerra entre Estados desde 1945 reforça isso. Aquela confederação de Estados impensável na época do Abade e de Kant hoje se chama União Europeia, que aos trancos e barrancos ainda é o mais complexo arranjo institucional entre Estados no mundo. Ambas as visões ainda existem, e debatem a essência do mundo contemporâneo, com suas incertezas e inconsistências.

E os jogos com isso? Em vídeo games, focados na experiência individual, são poucos os que apresentam experiências de grupo autenticamente cooperativas. A maioria dos multiplayers são competitivos, seja do mesmo lado ou tendo outros jogadores como oponentes. Mas se existe um tipo de jogo que consegue transportar a dinâmica debatida acima são os de tabuleiro, que se baseiam essencialmente na atividade em grupo. E até nisso vemos um debate, quando se comparam os jogos de estilo europeu e os norte-americanos.

Quando falamos em jogos de tabuleiro “norte-americanos”, pense em War ou Banco Imobiliário (as versões abrasileiradas do Risk e do Monopoly originais). Para quem não conhece, em War cada jogador controla diversos territórios em um mapa-múndi, ganhando e movimentando unidades militares para conquistar territórios dos inimigos e alcançar objetivos de vitória. Algumas características principais incluem a competição direta entre os jogadores, a falta de escrúpulos (desde que inseridas na regra do jogo) quanto a alcançar os objetivos de vitória, e a possível exclusão de jogadores que tenham exaurido seus recursos. Parece familiar? Especialmente no caso do War, temos uma comparação singular com o ambiente dos Estados proposto pelo Realismo. Os Estados (jogadores) não podem confiar em ninguém, e mesmo alianças tácitas ocorrem com o objetivo de derrotar um inimigo comum para depois alcançar seu próprio. Há fatores de sorte (como a “fortuna” de Maquiavel) e uma desconfiança completa quanto aos demais com o mero objetivo de, ao menos sobreviver. O uso da violência (conquista de território) é um meio e uma necessidade para alcançar metas. No fim das contas esse ambiente “sem lei” acaba propício a brigas, e as longas e desgastantes partidas tendem a ter um efeito nefasto sobre os jogadores – sabe-se lá quantas amizades foram abaladas por sessões desse jogo.

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Mas e os tais jogos europeus? Também conhecidos como jogos de estilo “alemão” (tendo surgido naquele país na década de 1970, e uma grande ironia ao lembrarmos se tratar do berço do wargaming), são baseados na cooperação direta entre jogadores, atenuam o elemento de competição e raramente excluem jogadores durante o andamento do jogo. O exemplo mais famoso deve ser o premiado jogo de 1995 “Colonizadores de Catan”. Nele cada jogador personifica um administrador que deve expandir uma comunidade por meio de vilas e estradas numa ilha desocupada (representada por um mapa de casas hexagonais), obtendo recursos e buscando alcançar as condições de vitória do jogo. A grande diferença está no fato de que não basta agir sozinho – para obter os escassos recursos e seguir adiante, é necessário negociar com os demais jogadores. Não há embates, mas comércio – e apesar de haver um único vencedor, todos os participantes possuem condições de controlar seu progresso ao longo do jogo por sua própria habilidade e persuasão: ao interagirem, estão percorrendo etapas para sua vitória, mas também contribuindo indiretamente com os adversários! Claro que como todo jogo, há regras e ainda é possível utilizar estratégias para atrapalhar os demais – sabe-se lá quantas amizades foram abaladas por bloqueios de estrada ou pela colocação do ladrão.

Estes tipos de jogos são tão ilustrativos que cheguei a usar como exemplo em sala de aula para definir aspectos dos grandes debates. Eles são interessantes para demonstrar, principalmente, o conceito de jogos de soma zero (das teorias matemáticas dos jogos). No Realismo, a competição faz com que necessariamente alguém perca (seja pela conquista territorial ou derrota militar), ou seja, em cada interação (no War, o movimento das pecinhas) ocorre o ganho de um às custas de outro. Em jogos de soma “não zero” ou cooperativos, a ação coordenada pode significar ganhos para todos os envolvidos (como nas trocas comerciais em Catan – uns mais, outros menos, mas todos ganham). Para ganhar, não é necessário causar dano aos demais – basta conseguir ganhar mais que eles. E isso encontra reflexo em dimensões contemporâneas das RIs, com questões que não podem ser compreendidas em termos binários de ganhos e perdas absolutas, ou que demandam cooperação completa sob o risco de danos comuns (como na área da ecologia).

Claro que são modelos muito simplificados, mas a comparação entre jogos de tabuleiro e o Sistema Internacional é significativa ao pensarmos em como podem ser interpretadas as ações dos Estados. Como boa parte desses estudos começaram com a extrapolação do comportamento individual para o do grupo político, não é de surpreender que jogos americanos, vindo de uma cultura que valoriza o empreendedorismo e o sucesso, tenham como foco a competição, enquanto o modelo europeu, com seu histórico mais sofrido e de reconstrução, tenha sua força na cooperação. Talvez seja a mesma razão pela qual boa parte das teorias tradicionais de RI seja de matriz norte-americana (justificando sua posição de poder no mundo), enquanto estudos alternativos, especialmente os sobre a paz, venham da Europa (que não via com bons olhos o fato de ser o provável campo de batalha da III Guerra Mundial e buscam alternativas, com razão, ao uso da força). Com isso vemos que há muito mais conexões entre jogos e RI do que se esperaria à primeira vista…

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  • Mais um excelente texto, Netus.

    Eu sou um apoiador da corrente mais cínica, onde a frase do romano Plauto, “Homo Homini Lupus”, rege a humanidade desde a origem do próprio homem, e qualquer conquista e avanço já conseguido (ou que possa acontecer) possui algum interesse e motivação por trás. Acredito que essa ideia seja o principal motivo do fracasso dos sistemas Socialistas e Comunistas perante o Capitalismo, mas isso é um debate para outro momento.

    Sobre os jogos, confesso que nunca joguei Catan, mas em compensação, joguei muitas partidas de War, e já presenciei (e participei) de muitas brigas.

    Tenho a impressão (baseada simplesmente na minha opinião) que, se juntarmos um grupo de pessoas, com Catan ou War como opções de jogos para o momento, o War levará vantagem…