Análise: Thimbleweed Park (PC)

Uma das sentenças mais usadas no começo da década passada era de que ” Os Adventures estão morrendo”. Era fato de que os clássicos jogos “point and click” haviam sido levados a outro patamar, mas que não agradava a todos os jogadores. Com a chegada de jogos do gênero Survival Horror, como o primeiro Resident Evil, o clássico sistema de adventure foi considerado defasado. Jogos como Grim Fandango ou Fuga da Ilha dos Macacos são exemplos de um modelo reinventado, graças aos desejos da indústria.

Essa história é importante, pois o próprio Ron Gilbert, um dos criadores de Thimbleweed Park, estava descontente com o rumo que esses jogos haviam tomado no final dos anos 90. Anos passaram e os jogadores, novamente, ficaram mais abertos a experiências antigas e abraçaram a nostalgia. Thimbleweed Park é um exemplo de que o novo, não precisa ser exatamente uma novidade.

UMA CIDADE MISTERIOSA

Ron Gilbert e Garry Winnick, criadores do jogo, foram desenvolvedores da Lucas Arts no final dos anos 80. Isso também será importante para esta análise, visto que ambos foram primordiais na criação de importantes adventures para a indústria, como Maniac Mansion e a própria série Ilha dos Macados. Em 2015, com a fundação da Terrible Toybox, Ron e Garry poderiam então, finalmente, voltar a investir no seu gênero mais amado.

Thimbleweed Park nasceu através do Kickstarter,  plataforma usada para arrecadar fundos para criadores de conteúdo, e a ideia surgiu na promessa de que o jogo seria um “point and click” ao estilo clássico, contando com um sistema de verbos aos molde da ferramenta “SCUMM” e gráficos em pixel art, tudo para homenagear suas primeiras criações. E isso fica claro logo ao iniciarmos o game.

ThimbleweedPark-Agents-Body

No jogo, conheceremos a história da estranha cidade fictícia de Thimbleweed Park, onde um assassinato ocorre logo nos primeiros minutos da trama. Para desvendar este mistério, controlamos, inicialmente, dois agentes federais. O novato Agent Reys e a experiente Agente Ray, o problema é que os dois não se conhecem e nunca ouviram falar de ambos os departamentos, já adicionando mais um mistério a ser resolvido.

Adiante, conheceremos mais três personagens jogáveis: O fantasma de Franklin, irmão do maior milionário da cidade, a garota Delores, que abandonou sua família na cidade de Thimbleweed para perseguir seus sonhos como desenvolvedora de jogos e Ramsome, o palhaço boca suja, outrora famoso na cidade por suas piadas infames, mas que foi amaldiçoado e não consegue mais limpar sua maquiagem de palhaço. Todos eles tem suas próprias histórias a serem contadas, fazendo com que o jogador não se canse facilmente do jogo se envolva cada vez mais nos mistérios da cidade.

Apesar do enredo ter um clima misterioso e ocorrer através de um assassinato, ele brinca com o jogador a todo instante através destes cinco personagens jogáveis e das figuras caricatas que encontramos na cidade de Thimblweed. O próprio jogo afirma em sua página que a cada dos minutos, uma piada será realizada. E realmente, quem conhece Ron Gilbert e Gary Winnick da época Lucas Arts, sabe que a cada instante, uma referência, piada ou quebra de quarta parede acontece. O incrível de tudo isso é que absolutamente nada soa forçado e cada vez mais, a trama principal vai ficando de lado para dar vazão aos personagens carismáticos e suas piadas.

ThimbleweedPark-Ransome-PostOffice

ADVENTURES SÃO DIFÍCEIS?

E como todo jogo do gênero, não faltam puzzles a serem decifrados, e todos os mistérios que o jogo apresenta, podem ser resolvidos através de uma maneira não linear em termos da ordem da narrativa. Ainda assim, existem puzzles ilógicos que fazem com que o jogador pense na maneira menos previsível possível, mas nunca sentimos que o jogo está nos enganando ou que ele está difícil demais.

E falando em dificuldade, o jogador nunca irá ficar preso em algum lugar, puzzle ou até mesmo morrer, algo comum que acontecia nos adventures mais antigos. Até uma piada no início do jogo debate essa questão do design ser feito especialmente para o jogador não desistir, apesar da aparente dificuldade do puzzle em questão, pois sempre teremos outras rotas alternativas para decifrar o enigma.

ThimbleweedPark-Delores-CityHall

Além disso, um dos modos adicionais do jogo, também, funciona para amenizar a dificuldade de jogadores novatos, chamado apenas de “modo casual”. Este modo dará mais pistas sobre os enigmas, além de cada personagem obter um diário pessoal que conta com os objetivos que cada um deve acessar.

As questões mais complicadas de quem não conhece o gênero, talvez seja o sistema de verbos. O jogador deve clicar em cima do verbo necessário antes de utilizar uma ação, simples assim. Verbos como “falar”, “pegar”, ou “usar” são os mais usados. E mais uma vez, para quem não está acostumado, apenas o simples segurar o botão do mouse direito fará com que o verbo seja usado automaticamente. Por exemplo, se formos falar com alguma pessoa, precisaremos selecionar o verbo “TALK TO” e depois clicar na pessoa, mas se o botão direito do mouse for pressionado em cima desta mesma pessoa, sem clicar no verbo, automaticamente o personagem irá falar com a pessoa em questão, facilitando o manejo na hora de jogar.

É através destas questões, facilitando puzzles, sistema de verbos e até mesmo, os caminhos a serem tomados na narrativa, que Thimbleweed consegue fornecer um tom atual, criando um possível interesse em jogadores casuais. .

FINALIZANDO

Thimbleweed Park tem a marca de seus criadores em todos os lados, pois ambos conseguiram trazer a nostalgia para saudosistas do gênero e conseguem convencer um público novato com puzzles inteligentes, referências e momentos engraçados a todo instante. Ponto alto também para a trilha sonora do game e sua dublagem original de todos os personagens do jogo. O jogo é mais complexo do que aparenta e isso é o que faz dele tão especial.

E por fim, esse provavelmente é o jogo com mais “uso” do Kickstarter possível, quem pagou por ele através desta plataforma, sabe do que estou falando,  mas isso eu vou deixar você jogar para descobrir. Acredite, vai valer a pena.

NOTA: 4,5/5

O jogo está disponível no Brasil para a PC e MAC desde o dia 30 de março. A cópia usada para este review foi fornecida pela Terrible Toybox. Confira também nosso PODCAST e nosso VÍDEO sobre o jogo.