A série Ace Combat – Parte final

Nesta última parte do nosso relato sobre a série de simulação de combate aéreo da Bandai-Namco, vamos mostrar um panorama dos jogos restantes da franquia. Enquanto nas semanas anteriores tratamos dos jogos clássicos de PSX e PS2, hoje vamos ver como a produtora tentou dar uma maior variedade de opções atacando em diferentes consoles, com resultados variáveis e no fim meio que ficando um pé na Sony para o futuro.

O primeiro jogo dos “outsiders” na verdade é contemporâneo da trilogia clássica. “Ace Combat Advance”, que como o nome acusa saiu para o Gameboy Advance, foi lançado no Ocidente junto com a versão europeia de “Ace Combat 5”, em fevereiro de 2005, e teve sua própria em outubro do ano seguinte – bem depois de “Zero” ter saído. São várias as observações sobre o jogo. Foi o primeiro da série a sair em um console portátil e que não fosse da Sony; foi o único jogo da série após “Shattered Skies” a não ter sido feito pelo time Project Aces; e o único feito fora do Japão, sendo que sequer teve uma versão japonesa. Isso se reflete na qualidade do jogo: é rotineiro entre os fãs dizer que seja o pior de todos, ou mesmo que nem se considere um Ace Combat. 1 - advance

Não é exatamente um jogo ruim, se tratando de um simpático shooter com visão superior em que o jogador deve cumprir variadas missões destruindo hordas de inimigos. Mas vários fatores fazem com que destoe dos demais jogos da série, como a história genérica, a ausência de aeronaves licenciadas (havendo o uso de versões fictícias “similares”) e principalmente a ruindade dos controles. A equipe de programadores incluiu até um movimento para alterar a altitude do avião num esforço de deixar a coisa mais interessante, mas mostrou a pedra no sapato que viria nas versões de PSP quando se trata das limitações físicas de um portátil. O jogo vale a menção por fazer parte da série, mas no fim das contas carrega apenas o nome.

A série daria o verdadeiro salto no final de 2006. Enquanto “Belkan War” dava o canto do cisne no PS2, em outubro e novembro a PA já apresentava um novo título, com o lançamento mundial quase simultâneo de “Ace Combat X: Skies of Deception” para PSP. O jogo continua a contar a história de Strangereal, desta vez expandindo a geografia para o hemisfério sul do mundo fictício, relatando um conflito entre os vizinhos Aurelia e Leasath. O herói do jogo, o ás Gryphus One, é um dos remanescentes das forças de Aurelia, devastadas por um ataque repentino e avassalador de super-armas de Leasath, o país invasor liderado pelo ditador e mercador de armas Diego Navarro, e deve liderar as forças do movimento de reconquista de seu país. A história é contada de uma maneira mista, com cenas narradas (similar a “Shattered Skies”) por um repórter acompanhando o conflito (ninguém menos que Genette, um dos personagens de “Unsung War”) que esta fazendo um documentário (como em “Zero”).

Só com isso se vê que o jogo bebe da fonte dos predecessores, mas especialmente de “Shattered Skies”. O jogo possui um sistema de rotas e missões com variações e objetivos diversos (de escolta a destruição de alvos), que mudam de acordo com as escolhas do jogador e oferecem um grande valor de jogabilidade. Com modelos importados dos jogos anteriores e alguns novos, são 40 aeronaves disponíveis, entre reais e fictícias, um número assombroso. E a história é algo no padrão da série, com a situação de Gryphus One sendo bem parecida com a de Mobius, tendo que erguer uma resistência devastada das cinzas, enquanto lida com esquadrões de ases e superarmas incluindo uma fortaleza voadora Gleipnir e o super-avião Fenrir, que tem camuflagem ótica de invisibilidade e atira raios de micro-ondas da morte. Na verdade, Gryphus é provavelmente o protagonista que mais enfrenta dificuldades em toda a série.2 - ACX

O sistema do jogo extrai o máximo do potencial do PSP – ao mesmo tempo em que se mantém preso às limitações do portátil. Os controles são similares às versões de PSX/PS2, mas a falta dos botões de ombro extras faz com que seja necessário o uso do direcional para comandos de voo, o que é meio desconfortável, mas o principal problema é o stick analógico do PSP, normalmente muito ruim e piorado em um jogo onde é necessária uma resposta rápida e precisão de comandos – os “tunnel runs” de X são os piores da série, pela dificuldade em si (ocorrendo em uma série de explosões e com a tela tremendo) e pelo hardware que torna a tarefa ainda mais difícil. Os gráficos são caprichados na medida do possível, mas a capacidade de processamento se reflete num número limitado de inimigos em cada missão, além do efeito de “névoa” de carregamento, algo problemático em um jogo que depende da identificação de ameaças à distância. Por outro lado, há males que vem para o bem – a tela pequena deixa a ação mais intensa; as missões não são longas pela quantidade limitada de inimigos; e apesar dos pesares, a capacidade sonora do portátil é reconhecidamente boa e isso se reflete na trilha sonora, de boa qualidade e com uma temática variada. Ademais, há um modo multiplayer ad-hoc que aproveita a capacidade de rede do PSP, permitindo que dois jogadores possam realizar missões em conjunto ou lutarem entre si – um atrativo que faz parte do conceito de portátil desde Pokemon. Este jogo teria tudo para se tornar o Ace Combat mais completo de todos os tempos, com uma história envolvente, boas missões e uma dificuldade acertada, mas sofre pelo fato de ter saído em um console com concorrência enorme de títulos e pouco popular para jogos desse gênero. Uma excelente pedida para os fãs que dispuserem de um PSP, apesar da raridade do jogo.Adicionalmente, em 2009, foi lançado “Ace Combat XI: Skies of Incursion”, para iOS. Trata-se de um jogo cuja história decorre paralelamente à de X, apresentando o esquadrão Falco, que luta ao lado de Gryphus. A apresentação é similar ao jogo de PSP, mas se valendo da interface de tela de toque dos telefones em apenas 9 missões. Infelizmente, o jogo não está mais disponível na loja da Apple desde 2015, mas pode ser encontrado por aí.

Antes disso, em 2007, a Namco dava continuidade à série nos consoles, desta vez rompendo a exclusividade com a Sony e surpreendendo com o lançamento de “Ace Combat 6: Fires of Liberation” exclusivo para XBOX 360. A aposta da empresa era um negócio lucrativo para ambos os lados, já que o XBOX ganhava uma série de jogos exclusivos com grande apelo da Namco (como Ace Combat e Idolm@ster) para tentar a sorte no Japão, onde a linha da Microsoft nunca fez muito sucesso. Além disso, a empesa lançou edições especiais com um controlador de velocidade e manche chamado “Ace Edge”, compatível com outros jogos mas feito especificamente para este título, dando um charme extra para os entusiastas.3 - AC6

“Fires of Liberation” é certamente o jogo mais bonito, visualmente, da série toda. A ambientação, mapas, e principalmente os modelos e texturas dos aviões são de uma qualidade excepcional mesmo hoje, quase uma década depois de o jogo ter sido criado. O que faltou de capacidade no PSP veio com carga máxima no jogo do 360: o conceito do jogo se dá em torno de batalhas de grande escala, com várias operações ocorrendo ao mesmo tempo, e em determinado momento quem não estiver jogando em uma tela de alta definição pode ficar completamente perdido com a quantidade de alvos e unidades na tela ao mesmo tempo. Os rastros deixados pelos mísseis disparados cria um balé de fumaça e destruição que é único na série. O grande senão na parte técnica é a quantidade limitada de aeronaves – ironicamente, há apenas 15 modelos, com diversas cores e opcionais. Parte dessa deficiência é solucionada com a chegada de uma não tão agradável novidade, com a introdução do sistema de DLC, que oferece novos aviões (alguns gratuitos) e até missões extras para compra. A música tem uma inspiração e execução claramente orquestral, que se mostra bem adequada à temática de grandiosidade do jogo.

Uma vez mais, a história se encaixa no contexto das mecânicas de jogo, se passando agora no hemisfério norte de Strangereal. Contando eventos decorrentes da famigerada queda do asteroide Ulysses (contada em “Shattered Skies”), tem-se um conflito entre Estovakia, um país comandado por uma junta militar e que sofreu perdas enormes devido à destruição causada pelos meteoritos, e Emmeria, que é invadida pelos vizinhos. O herói da vez, o ás Talisman do esquadrão Garuda, é expulso junto com as forças de Emmeria logo no começo do jogo, e cabe ao jogador conduzir as forças do país na retomada da capital e libertação do país das forças de invasão. Tudo isso é narrado de uma maneira meio canhestra, acompanhando a história de uma mãe que se perdeu de sua filha na invasão – pode parecer comovente, mas a execução é bem piegas e envolve uma citação irritante que se repete ao longo do jogo todo.

Em termos de jogabilidade, a grande dificuldade é a adaptação ao controle gigante do XBOX, que pode confundir quem esteja acostumado ao tradicional DualShock, mas as novidades superam isso. A grande inovação de mecânica é uma expansão do sistema de comandos de aliados: ainda á possível pedir ajuda a Shamrock, seu copiloto, mas à medida em que derrota inimigos o jogador preenche uma barra que, quando completa, permite coordenar ataques com esquadrões inteiros ao seu dispor. Isso se liga ao “Sistema de Missão Dinâmica”, em que cada fase do jogo pode ter de uma a seis missões diferentes ocorrendo simultaneamente, com objetivos diferentes e sendo necessário cumprir uma quantidade mínima para avançar – aqueles esquadrões cuja missão tenha sido completa se tornam disponíveis para esse ataque combinado. Por fim, o sistema de ESM é uma rede de radares e aviões de suporte que concedem bônus para alinhamento de alvos e defesa contra mísseis, presente em diversas missões e que deve ser usado pelo jogador para cumprir seus objetivos.

No papel, parece algo épico. E não deixa de ser, mas na prática, há um problema grave, um pouco presente nos demais jogos, que é a dependência extrema do jogador para que as coisas funcionem. Essa função análoga a um “faz tudo” pode ser frustrante, com a necessidade de idas e vindas durante a missão e possibilidade de por tudo a perder por uma operação que falhe. Por outro lado, esse apoio extra dos esquadrões pode tornar algumas missões muito fáceis, pois quando a ajuda vem é possível limpar a tela de inimigos com uma única saraivada de mísseis. Missões como o ataque à fortaleza voadora Aigaion podem ser completamente facilitadas (e perder a graça) ao se abusar do sistema de suporte. Mas o principal problema é justamente a escala das coisas – as missões são longas, com uma quantidade enorme de alvos, por vezes tediosas, e mesmo com um sistema de checkpoints fracassar em uma etapa pode ser muito frustrante pelo tempo perdido.

Há alguma variedade, como as missões contra as superarmas (Aigaion e o canhão Chandelier) e alguns tunnel runs ao longo de missões diversas; o sistema de suporte é muito legal na teoria, e visualmente é belíssimo, mas o jogo peca por ser cansativo, e exclusivo do 360, o que faz muita gente fã da série tradicionalmente alocada em máquinas da Sony não conhecer este título.

4- AC Joint AssaultEm 2010, sai o jogo que dá início à maior controvérsia da série. “Ace Combat: Joint Assault” (chamado “X²” no Japão) saiu para PSP em agosto daquele ano, e abriu mão de Strangereal para contar uma história no nosso próprio universo. Trata-se da história do esquadrão Antares, a serviço de uma força militar privada, que se envolve numa grande conspiração orquestrada por um magnata dos seguros que quer literalmente dominar o mundo. Apesar de não ser o primeiro da série a se ambientar no nosso mundo (este seria o fliperama “Air Combat 22”), “Joint Assault” mostra como o ambiente “real” torna difícil contar uma história dessas de combates aéreos e superarmas sem cair na galhofa.

Apesar do esforço da equipe em deixar o título amarrado, e de ser muito similar a “Ace Combat X”, muitos fãs torcem o nariz tanto para o enredo quando alterações na física de jogo (que deixou o controle das aeronaves mais difícil) além do design de fases pouco inspirado e controvertido, contando com bizarrices como uma missão única na série, em que o jogador deve conduzir um Jumbo 747 por um cânion. “Joint Assault” incluiu vários pontos positivos, como a maior quantidade de aviões da série em um jogo regular (com 44 modelos, incluindo o Jumbo citado e até aviões da Segunda Guerra Mundial), além de um modo multiplayer local e online, em que até quatro jogadores podem cooperar nas missões (por exemplo, escoltando o Jumbo…) alterando a sequência das mesmas, aquela que é possivelmente (junto de “Zero”) a melhor trilha sonora da série, incluindo músicas clássicas de “Ace Combat 2”, e algumas missões memoráveis, como as batalhas contra o avião gigante Spiridus. Porém, o jogo é famoso pela sua infame missão final, a luta contra o esquadrão Varcolac, um exemplo trágico de dificuldade programada e artificial, em que o vilão quebra leis da física e é literalmente invulnerável em boa parte do combate para que possa fazer seu discurso. Uma pena, pois o jogo é divertido na medida do possível, e é um dos poucos ainda disponível em canais oficiais para compra e download.

Para comprovar que sempre se pode piorar e a equipe estava perdendo a mão de fazer os jogos, em outubro de 2011 é lançado “Ace Combat: Assault Horizon”, para PS3, 360 e posteriormente Windows via Steam em 2013. O jogo bebe da fonte de jogos como “HAWX” e “Call of Duty”, com uma ação frenética e tentando dar um grau elevado de realismo, mais uma vez a história se passando em nosso mundo real.5 - AC Assault Horizon

Apesar de novidades interessantes, como missões em “gunships” (aeronaves de ataque) e helicópteros, que destoam da temática de “combates de ases” mas não são exatamente ruins, há uma mecânica nova que destrói tudo que se espera de Ace Combat. O famigerado “Dogfight Mode” é parte de um sistema denominado “Close Range Assault”, que trava a tela num inimigo e permite ao jogador crivá-lo de balas para uma ação dinâmica e brutal. Visualmente é interessante, mas no jogo significa transformar um dos gêneros de maior versatilidade de comandos em um “rail shooter” enquanto o jogador voa completamente invulnerável. A programação é tão ruim que muitas vezes os inimigos são destruídos automaticamente ao final da sequência. Some a isso eventos tipo “quick time” e temos um jogo que assim como “Advance” carrega o Ace Combat apenas no nome. Isso para não comentar a história, um arremedo de Tom Clancy sem pé nem cabeça que coloca EUA contra União Sov- digo, Rússia. Apesar dos gráficos bem-definidos (que realmente produzem explosões e destroços espetaculares, mas não se comparam em qualidade aos de “Ace Combat 6”) e da trilha sonora boa (como sempre), a falta de liberdade para o jogador e o excesso de eventos roteirizados tira completamente a graça de um jogo que, se não fosse um Ace Combat, poderia ter uma sorte melhor.

Ainda valem duas menções honrosas: “Ace Combat: Northern Wings” saiu para telefones em 2011, e assim como “Advance” é um shooter vertical, com poucas missões, mas ambientado em Strangereal e contando histórias paralelas aos jogos clássicos da franquia, valendo a pena para os fãs de longa data.

6 - AC Assault Horizon LegacyNo mesmo ano, saiu “Ace Combat: Assault Horizon Legacy” (no Japão, “Ace Combat 3D: Cross Rumble”), que já foi mencionado no primeiro review. Trata-se de um remake turbinado de “Ace Combat 2” para o Nintendo 3DS, e que ganhou uma versão “Plus” em 2015 compatível com o novo 3DS e o uso de figuras Amiibo (permitindo coisas como aviões com a imagem do Super Mario ou do Bowser). O jogo é o mais recente da série, e considerado muito bom pelos fãs: mesmo possuindo um recurso similar ao DFM de “Assault Horizon” (jocosamente conhecido como o botão “aperte pra vencer”) este pode ser desligado, para a alegria dos fãs puristas.

Até então, o último jogo da franquia é o contestado “Ace Combat Infinity”. Exclusivo para PS3, o jogo lançado em 2014 é um multiplayer online de modelo “freemium”, tecnicamente gratuito, em que várias funcionalidades do jogo dependem do consumo de unidades de “combustível” que são repostas a cada 4h, mas com um limite de armazenagem de 3. O jogo possui apenas modos cooperativos, mas esporadicamente há a introdução de missões competitivas em que os jogadores enfrentam uns aos outros.

7 - AC InfinityÉ possível obter itens e emblemas gratuitamente por meio de desafios e campanhas especiais, mas como esperado, é possível comprar DLCs e items que auxiliam no jogo, como o desbloqueio de missões do modo off-line (com uma história que mistura elementos de Strangereal com o mundo real em um banho de referências para agradar os fãs) e a compra de combustível armazenado. É uma máquina de fazer dinheiro, com torneios semanais ou mensais em que jogadores gastam somas vultosas para conseguir aeronaves limitadas (e haja aeronaves, são mais de cem modelos até agora, incluindo motores a pistão e bombardeiros). Apesar desse modelo bastante contestado, o jogo em si tem uma mecânica incrivelmente polida, com um sistema de evolução de aeronaves e armas secundárias que torna a experiência do jogo em si muito boa, mas completamente destrutiva devido ao modelo “freemium” que privilegia jogadores dispostos a gastar dinheiro toda semana em detrimento daqueles que aceitem o desafio de jogar de graça e com limitações.Com esse quadro, os fãs viam um futuro incerto para a franquia, que com “Infinity” parecia apelar para a nostalgia e tentar um último sucesso financeiro, desrespeitando os fãs com servidores instáveis e um modelo que incentiva o abuso de novatos e a competição desregrada.

8 - AC7Porém, o anúncio de Ace Combat 7” (clique para ver o trailer) parece trazer um alento para o futuro. Possivelmente exclusivo para PS4 (devido à compatibilidade com o óculos VR), com mecânicas de jogo de alta definição (os diretores já revelaram em entrevistas por exemplo que há algoritmos para a criação e textura das nuvens, que terão efeitos diretos na visibilidade), o abandono de elementos contestados como o DFM (reconhecido como um erro pelo PA) e o retorno ao querido mundo de Strangereal, que dará uma vez mais liberdade narrativa para o título faz com que seja possível sonhar com um título grandioso para dar sequência a esta série magnífica.

Resta aguardar para saber o que o futuro reserva aos ases dos games.